Qual é a melhor abordagem para ajudar crianças a lidar com o luto em tragédias como Brumadinho?


Muitas perderam os pais ou simplesmente viram imagens da lama. Como explicar a situação e diminuir o impacto do trauma? G1 ouviu especialistas. Crianças lidam com tragédias de forma diferente, de acordo com a personalidade e a faixa etária Hans Kretzmann/Pixabay Francis Marques da Silva é vítima do rompimento da barragem de Brumadinho e deixou uma filha de 4 anos. Cláudio José Dias Rezende era pai de um menino de 5 anos e também morreu devido à passagem da lama. A lista segue. E além do luto dos adultos, é importante ter calma e pensar uma maneira de lidar com as reações das crianças. O G1 ouviu especialistas para saber qual deve ser abordagem e diminuir o impacto do trauma. Números da tragédia 115 mortos confirmados – 71 identificados (veja a lista) 238 desaparecidos (veja a lista) 192 resgatados (veja a lista) 394 localizados 108 desalojados ou desabrigados Tragédia em Brumadinho: animação mostra ponto a ponto deslocamento do mar de lama ACOMPANHE ATUALIZAÇÕES NA COBERTURA AO VIVO Faixa etária Um estudo coordenado por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) entrevistou 271 atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana. A conclusão: 12% dos afetados pelo desastre sofrem de estresse pós-traumático. O índice chega a 83% entre as crianças e adolescentes. O mesmo deve acontecer na tragédia em Brumadinho. As reações durante a infância podem ser diferentes de acordo com a faixa etária, personalidade e circunstâncias da vivência do fato. Ludmila Schulz, coordenadora do curso de Pedagogia do Centro Universitário Celso Lisboa, diz que crianças com até 6 anos têm mais dificuldade de se expressar por meio da fala. É mais comum demonstrar os sentimentos durante as brincadeiras, com desenhos, e/ou mudanças de comportamento, como o isolamento. "As crianças muito pequenas geralmente se isolam ou se agarram mais aos adultos. Mas também existem outros fatores que influenciam na intensidade do trauma, como perder diretamente um familiar", diz Ludmila. Depois dos 6 anos, ainda de acordo com a pedagoga, elas têm mais facilidade de falar sobre os acontecimentos. Mesmo assim, é importante não forçar uma conversa. "Deixar a criança o mais à vontade possível. Não forçar nenhum tipo de conversa. Aceitar dialogar sobre qualquer aspecto. Se a fala surgir a partir da criança, trabalhar com calma no que for dizer. O importante é sempre falar a verdade e de forma delicada". Independente da faixa etária, muitas vezes a criança usa o mecanismo da negação – ela muda o comportamento, sente o trauma, mas não quer falar. "A saída é respeitar, mas tentar estimular a brincar e se divertir. É por meio da brincadeira que ela vai tentar ressignificar o que aconteceu e se abrir. Não é porque ela está brincando que não está sofrendo". Como deve ser a conversa? Há uma diferença entre a criança que só teve um contato com a tragédia – viu imagens, sabe de um amigo diretamente afetado – e a que perdeu alguém na própria família e vivencia o luto. "É uma cidade inteira que perdeu muita gente. Esse luto vai ser coletivo. Existe o luto particular, de quem perde um ente querido. A pessoa vai vivenciar todo o processo, como nós adultos", diz Deborah Moss, neuropsicóloga e mestre em psicologia do desenvolvimento humano pela Universidade de São Paulo (USP). Deborah explica que as crianças passam pelo luto de outra forma. As menores de 3 anos não entendem que a morte é irreversível e, por isso, precisarão lidar com a falta diária. "Ela está sempre achando que a pessoa vai chegar, mas a pessoa não volta. A criança também se abala com as pessoas chorando, às vezes reagindo dessa forma pela primeira vez". Por isso, a neuropsicóloga explica que a conversa precisa "acolher frente aos sentimentos que aparecem e responder as perguntas". A linguagem deve ser clara e verdadeira, mas sem detalhes desnecessários escatológicos ou fortes demais. "Se perguntar: como ela morreu? A lama veio, e era muito forte, e o corpo dela não aguentou. Ponto", diz Deborah. As especialistas preferem evitar o uso de metáforas como "foi viver no céu" e "virou uma estrelinha". "A família, na tentativa de acolher, passa informações que a criança processa de um jeito diferente. Quando fala que a vítima "vai para o céu", a gente tem uma noção mais abstrata. Vai de encontro com a religião de cada um, e a criança não tem isso desenvolvido ainda. A gente precisa explicar a finitude da vida, que a pessoa morreu 'e não volta mais'." Bloquear as imagens? Para Ludmila, as crianças que não foram afetadas diretamente não precisam ser isoladas do fato. "Bloquear não é o ideal. Ela pode estar fora da escola, mas, certamente, quando voltar ao convívio dos colegas, alguma conversa ou pesquisa nesse sentido pode surgir. A informação está em todo lugar". "É interessante os adultos participarem na hora de ver as notícias e, olhando as imagens, explicar para a criança e conversar". Para Deborah, as perguntas sobre noticiário e possíveis questionamentos sobre o número de mortes deve partir do filho: "A criança que não chegou até a informação não precisa ter contato. Não está na realidade dela. Mas se ela viu na televisão, fez perguntas, tem que ser dito e explicado". Initial plugin text

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