Como o estresse da pandemia da Covid-19 tem se refletido no que sonham os profissionais de saúde no Brasil


Projeto que envolve pesquisadores da USP, UFRGS e UFMG investiga o que os brasileiros estão sonhando durante o confinamento social. Membro de equipe de limpeza em frente a mural desinfeta rua da Cidade do México como ação contra a pandemia do novo coronavírus Pedro Pardo/AFP Uma psicóloga testemunha o momento em que um trator derruba um hospital. Uma médica observa pacientes frágeis e sem movimento sobre os leitos, enquanto atravessa um corredor rumo à tensa tarefa de detalhar o estado de saúde a familiares. Entre o absurdo e o reconhecível, são imagens contidas nos sonhos de profissionais de saúde brasileiros que tratam os doentes do novo coronavírus. Os relatos refletem a angústia de quem se vê na linha de frente nacional da maior crise de saúde em um século. O que está sendo contado faz parte de um projeto conjunto de pesquisadores de três grandes universidades brasileiras (USP, UFMG e UFRGS). O objetivo é investigar como a pandemia e a quarentena estão afetando os sonhos dos brasileiros - não só de quem atua nos hospitais, embora esses chamem a atenção em razão da carga de responsabilidade e estresse que são submetidos. Segundo Rose Gurski, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o tema da perda se destaca nesses relatos oníricos. "Perda do carro, perda do endereço de casa, perda da memória, perda de pessoas, ou ainda, perder-se e não saber voltar para casa", diz ela que, ao lado de Cláudia Perrone, é responsável pela compilação de sonhos na área de saúde e educação. A professora da UFRGS também aponta uma diferença na intensidade de como essas imagens são vividas durante o sono. "Eles narram que sonham mais, que seus sonhos estão mais vívidos, mais detalhados e que lembram melhor o que sonharam. Há forte angústia, aparecem ambientes com pouca luz, descrição de mal-estar, muitas questões que remetem a incertezas, dúvidas, ausência de possibilidade de controle... sensação de perseguição, traições, falta de confiança nos laços." Volte a prestar atenção ao que você sonha, afirma o neurocientista Sidarta Ribeiro O psicanalista Christian Dunker, que participa ao lado de Miriam Debieux Rosa pela USP (Gilson Iannini integra o projeto pela Universidade Federal de Minas Gerais), afirma que "os sonhos estão nítidos, às vezes hipernítidos, e mais extensos. Têm temas de violência, de perseguição, de intrusão, refletindo um pouco a nossa situação de confinamento social e quarentena". Esse primeiro estágio de coleta já chegou a cerca de 300 relatos. Trabalhador usando roupas protetoras desinfeta um shopping contra a Covid-19 em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Sílvio Ávila/AFP Dunker enumera três hipóteses para explicar por que as lembranças oníricas estão mais marcantes durante a quarentena. "Estamos dormindo mais porque abreviamos o tempo de trânsito, estamos mais em casa e isso favorece a experiência do sono", diz o psicanalista. "A segunda hipótese é de que estamos em uma situação de uma convocação muito séria, muito intensa para o trabalho psíquico. Fica no limiar do traumático, com uma perda do nosso cotidiano, com intensificação de afetos como o medo, como angústia, como incerteza. Isso tudo é a convocação para um trabalho maior para acomodar o simbólico. De fazer frente ao real, algo insuportável para muitos." Por fim, diz Dunker, "vai acumulando uma vontade de que isso [a pandemia] acabe. Os sonhos sempre se aproveitam dos desejos atuais, partem dos nossos problemas de hoje e voltam para os desejos passados. O sonho é um leitor do futuro, não porque ele adivinha o destino do mundo, mas porque a vontade das pessoas concorre para a determinação de estados futuros do mundo". "As pessoas parecem estar mais atentas a sua vida onírica", diz Rose Gurski. "Temos visto que só o ato de contar os sonhos já parece promover um certo ‘apaziguamento’ com a estranheza das cenas oníricas." Sonho constantemente que preciso chegar a algum lugar com muita urgência, mas nunca consigo chegar. Tento de várias formas, mas sempre há obstáculos. Tentativas sem fim e frustradas de atingir o destino final, como se não houvesse saídas e vias mais simples. Talvez seja essa a sensação diária de estar na linha de frente em momento de pandemia" O sonho passou boa parte do século passado relegado à condição de curiosidade, e muitos da comunidade acadêmica ironizavam os trabalhos de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung ao dizer que tinham mais valor para a literatura do que para a ciência. Conforme a tecnologia avançava e as pesquisas ganhavam mais capacidade para entender o funcionamento do cérebro, um de seus produtos mais misteriosos voltou a chamar a atenção de cientistas. A maré mudou. "O nosso momento é muito interessante se a gente observar o trabalho de um pesquisador com o qual a gente está próximo, o [neurocientista] Sidarta Ribeiro. Ele vai fazer uma coisa para nós muito interessante que é aproximar os achados da neurociência contemporânea com as hipóteses freudianas do começo do século 20", diz Christian Dunker. Inspiração O projeto "Oniropolítica em tempos de pandemia", das três universidades brasileiras, tem inspiração no ensaio "Sonhos no Terceiro Reich", de Charlotte Beradt. Na década de 1930, a jornalista alemã de origem judaica recolheu testemunhos de sonhos vivenciados por centenas de pessoas enquanto o regime nazista experimentava a ascensão que culminou na Segunda Guerra Mundial. O texto estabeleceu uma ponte sobre questões que permeavam a situação política de então com o que ocorria no espaço da vida privada da população. "O sonho é uma alucinação que a gente tem à noite, mas ele se afina com o tema da política porque ela também é um campo dos desejos humanos, um campo que a gente se organiza coletivamente pra decidir o que queremos - pelo menos na política democrática. É a partir dessa afinidade, o fato de que a política democrática se faz com a palavra, que a gente suspende a violência e a troca pela palavra", explica Dunker. Apesar da angústia que marca os relatos oníricos da quarentena, o psicanalista da USP vê nesse período um espaço para mudança. "Nossa imaginação política andava muito pobre, muito rasa, muito estreita, a gente sonhava em sobreviver, a gente só conseguia sonhar com o futuro muito próximo", diz ele. "Há espaço justamente para uma política que recupere o que queremos dar expressão." Neurocientista Sidarta Ribeiro e a importância dos sonhos

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